Novo embate de idéias com o Clemente Nóbrega sobre inovação. Ele acredita que todas as pessoas são médias, ninguém deve achar que pode inovar. Inovação, segundo ele, é fruto de uma boa gestão e de uma estratégia sólida.

Eu fico intrigado com ele. Vejo que o nosso gosto bibliográfico é muito parecido. Nomes com Taleb, Christensen, Pinker e Ronsenzweig estão entre os meus favoritos e dele também. Mesmo assim a nossa visão sobre inovação parece separada por visões distintas sobre os indivíduos.

Respeito muito ele, apesar da teimosia e das tentativas de encerrar o debate com afirmações axiomáticas ele até que valoriza o debate.

Pensei muito sobre isso nesses últimos dias enquanto trocava comentários no blog dele e acho que a diferença está no tipo de empresa que ele conhece bem e as que eu tenho maior contato. O mundo do Clemente é o mundo corporativo, das grandes empresas, milhares de funcionários, manuais de conduta e a tirania dos resultados trimestrais. Empreendedorismo aqui é conhecido como “intraempreendedorismo“.

O meu mundo tem sido, nos últimos anos, o das startups, da web, da busca por criar valor a partir do nada e por que não também admitir, da tirania do valuation.

O problema é que inovação no mundo dele é bem diferente da inovação que os empreendedores conhecem. É a “melhoria incremental” travestida de inovação. Nas corporações a gestão tem que reinar absoluta, sem um modelo de gestão forte os resultados desaparecem, o elefante sucumbe e morre. Aqui a variância é palavra proibida. O medo é forte, impera. Ciência de gestão faz todo sentido nesse mundo.

Nas startups o cenário é outro. Não faz sentido falar em gestão do modelo de negócios quando o modelo ainda nem foi encontrado! Aqui não pode ter medo, tem que ter muita variância, criatividade, pensar “fora da caixa”.

Nas grandes corporações qualquer indivíduo é um mero número, compõe a média. Dá pra entender a visão do Clemente nesse contexto, mas nas startups um indivíduo melhor qualificado, com experiência específica faz toda a diferença do mundo. Nos times de empreendedores que fundam novas empresas do zero, cada cabeça puxa para cima ou para baixo, é impossível pensar em média numa startup.

O embate de idéias acontece quando uma startup deixa de ser startup, cresce pra burro e vira uma corporação. Quem é do mundo corporativo vai enxergar a estratégia e a gestão como sendo as responsáveis pelo sucesso. Quem é empreendedor vai enxergar diferente, vai lembrar das idéias malucas, dos lances de sorte, das decisões tomadas com a intuição. Tudo isso será esquecido na fase corporativa e é por isso que tantos fundadores deixam a empresa nessa transição.

Sou suspeito para falar, mas acho que o mundo precisa muito mais do empreendedorismo do que dos cientistas da gestão, mas vou deixar isso para um outro dia…

update: O Clemente publicou um novo post comentando este e deixa claro que a visão dele é um pouco diferente do que coloquei aqui. Ao final parece que convergimos mais uma vez para uma visão construtiva sobre empreendedores inovadores (sim, eles existem e podem ter sucesso!) e que a inovação pode acontecer em qualquer empresa gerada por qualquer um, desde que a gestão seja boa. Obrigado Clemente, pela disposição em debater o tema.

crédito foto: Ed from Ohio

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