31/05/2008

Estratégia. Essência e folclore.


Vamos começar já separando o que é fundamental do que é apenas folclore, afinal como disse Napoleão "Planejar é essencial, um plano é inútil". A lenda se chama planejamento estratégico. A essência tem nome mais curto, é apenas "estratégia".

O termo "planejamento estratégico" tem seu lugar nos livros e nas grandes corporações, nos grilhões da aversão ao novo, ao risco, e a tudo aquilo que efetivamente pode mudar o status quo. De dentro das torres corporativas alguns ainda acreditam que podem prever o que acontecerá nos próximos cinco, dez, quinze anos! Exercício fútil de futurologia que jamais se comprova e de nada serve aos empreendedores que precisam lidar com mercados dinâmicos, complexos, que sempre oferecem novas oportunidades. Se alguém ainda estiver em negação, sugiro procurar os planejamentos de cinco ou dez anos atrás e encontrar a previsão do petróleo a U$133, o ouro acima de U$900, ou a falência do Bear Stearns.

Tendo deixado o folclore de lado, podemos focar na estratégia. Todo empreendimento que se preze precisa de uma orientação estratégica, do contrário cai no quaisquérismo - o famoso "fazemos qualquer negócio". A estratégia tem que estar fundada numa tese de investimento.

Pego emprestado o termo usado pelos investidores porque podemos enxergar todo empreendedor como investidor também, ele investe seu tempo, sua experiência e sua energia, e é bom que invista bem para colher bons resultados.

A tese de investimento, ou se preferir "tese de empreendimento" deve conter uma visão clara e objetiva sobre alguma tendência importante, transformadora, que opera nos mercados independentemente da existência do empreendimento em questão. Posso dar um exemplo: "a internet vem se consolidando como mídia mainstream e está transformando as relações entre empresas e consumidores, o poder passa para a comunidade de consumidores que começa a ditar quais produtos devem ser criados".

Se a tua idéia é capitalizar o negócio com dinheiro de investidores então não se esqueça da pimenta, a tendência tem que ser muito forte, muito transformadora e capaz de mudar o mercado com rapidez (pense que você tem no máximo 8 anos para montar o negócio, crescer muito ganhando escala e resolver a saída do investidor).

Com base nessa tese o empreendedor deve decidir como posicionar seu negócio. Esse posicionamento deve determinar o que é o negócio. Para tanto é preciso decidir novamente: O que fazemos? (e o que não fazemos), Para quem fazemos? (e para quem não fazemos), Como fazemos? (e como não fazemos). Respondidas essas perguntas você tem o seu modelo de negócios.

Acabou? Ainda não, mas falta pouco. Esse pouco faz toda a diferença, afinal de que adianta criar um belo modelo de negócios com uma excelente leitura do mercado se você não souber para onde está indo? Para isso servem as metas e os indicadores. Outro conjunto de decisões importantes e difíceis: Quais acontecimentos podem comprovar que nossa leitura estava correta e que nosso modelo de negocios funciona? Essas são suas metas. Como posso medir isso? Esses são os seus indicadores.

Tese construída, modelo criado, metas acordadas e indicadores definidos. A estratégia a serviço do empreendimento. Parece que agora dá pra respirar.

Que nada! Se fosse assim tava fácil. A partir daí a coisa só complica, e ela também tem nome, chama "execução". Mas isso fica para um post futuro porque esse já ficou grande demais...

Quem concorda? Quem discorda? Adcione a tua visão para enriquecer a conversa.

28/05/2008

Comprar ou alugar?


"Deu no New York Times..."

Esse post é uma dica rápida para aqueles que tem dúvidas sobre qual a melhor alternativa (financeira) entre alugar ou comprar um apartamento ou casa. Foge um pouco do foco do blog, mas como sei que é um assunto que interessa a muita gente achei interessante divulgar a ferramenta. Clique no link acima, preencha com seus números e veja o que é melhor no seu caso.

Se alguém ficar com dúvidas ou quiser uma ajuda para usar é só comentar abaixo.

24/05/2008

Livros de negócios, ler ou esquecer?

Hoje eu dei uma olhada para a minha estante e reparei como os livros de negócios saíram dos lugares onde coloco os próximos que pretendo ler. Fiz isso depois de ler um excelente post do Seth Godin de como ler os livros de negócios.

O artigo dele separa a leitura (ou a escrita se o ponto de vista é o do escritor) em duas partes, 95% do tempo ele está te motivando a agir, tomar uma decisão ou mudar alguma coisa e apenas em 5% do tempo ele passa a receita de como fazer algo. Ele usa como exemplo oposto os livros de culinária. Quem escreve receitas não fica preocupado em motivar o leitor a ir para a cozinha, 95% do conteúdo dos livros de culinária são receitas de como fazer algo.

Eu gostei muito dessa visão e percebi os meus próprios erros quando li tantos livros de negócios que acabaram não me servindo para grandes coisas. A nossa tendência natural é passar voando por cima dos 95% e procurar logo os 5% que vão, teoricamente, resolver algum problema nosso no próprio negócio.

O problema é que esses 5% (a lista dos 10 conselhos , ou dos 5 "how to", e os cases de alguma empresa que fez algo que deu certo) raramente irão servir na prática e você provavelmente os esquecerá bem rápido. O importante é entender como aquele autor pode mudar sua perspectiva sobre o seu negócio e te fazer mudar algum comportamento.

Quando a leitura do livro de negócios passa a ter essa cara é bem fácial escorregar para uma categoria de auto-ajuda, como a Elizabeth Spiers criticou num outro bom artigo chamado "Library of the living Dead". Eu acho que a esmagadora maioria dos livros cai nessa categoria e podem ser simplesmente ignorados, mas creio que algumas coisas boas sempre se salvam.

Voltando para o Seth Godin ele sugere no final do artigo que quando você for ler o próximo livro de negócios, você deve decidir antes de começar que você irá mudar três coisas que você faz todo dia no trabalho. A partir daí leia o livro buscando quais serão essas mudanças, o propósito da leitura passa a ser te persuadir a mudar e escolher o que mudar.

Volto a concordar com ele, as melhores coisas que tirei de leituras de livros de negócios foram novas perspectivas sobre coisas que até então eu enxergava de forma diferente, os cases, listas e bullets dificilmente deram algum resultado.

Agora que chego no final deste texto já fico até motivado a resgatar algumas boas indicações de livros de negócios do Ricardo Jordão (Biz Revolution), ele sempre faz excelentes recomendações.

E você, qual foi o último livro de negócios que te fez mudar sua perspectiva? Divida!


update: ler o Roger Von Oech é um bom começo para mudanças de perspectivas.

18/05/2008

Estudantes empreendedores

Você ainda nem se formou e já está querendo empreender. Muitos irão te aconselhar a esperar e antes pegar um pouco de experiência numa grande empresa. Outros irão te dizer que é simplesmente loucura e que não vale a pena.

Eu admito que começar do zero sem nenhuma experiência aqui no Brasil não é nada fácil e requer bastante coragem para enfrentar as barbaridades do ambiente daqui. O crédito para um jovem empreendedor é praticamente inexistente, enquanto que sobram burocracia, impostos e encargos trabalhistas. Dito isso, vale a pena arriscar?

Minha resposta é um contundente sim. Primeiro porque conheço alguns que começaram assim e hoje não se arrependem nem um pouco, ou seja, é possível e muito recompensador. Segundo porque a economia brasileira nunca esteve tão propícia para empreender. Quase todos os setores estão "bombando", aproveite. E terceiro porque você, nesta fase, leva algumas vantagens.

Ao invés de descrevê-las aqui, vou passar a bola para um empreendedor que escreveu um artigo muito bom sobre isso, e que é válido para qualquer país (ele atua nos EUA). O nome dele é Dharmesh Shah e o artigo foi entitulado "Why students make great entrepreneurs". Se você é estudante e está com dúvidas sobre dar o passo, leia esse artigo.

15/05/2008

Tendências para o futuro

Ontem a noite cinco dos mais renomados investidores de venture capital do mundo se reuniram em San Jose no Churchill Club of Silicon Valley para apresentarem suas visões sobre o futuro.
Steve Jurvetson, Vinod Khosla, Josh Kopelman, Roger McNamee e Joe Schoendorf debateram

quais são as grandes tendências tecnológicas.
A discussão ficou bastante concentrada no mundo mobile, nas informações implicitas na web e nas grandes questões de energia e água.

Segundo o Vinod Khosla, fundador da Khosla Ventures o celular se tornará mesmo o computador pessoal da maioria das pessoas. Com projetor embutido, autenticação, cartão de crédito no chip, identidade, passaporte e carteira de motorista, tudo no seu celular. Se você perde o aparelho os dados estão todos na rede, é só pegar um aparelho novo.

A tendência apontada pelo Josh Kopelman sobre o uso das informações que já estão implicitas na web, como por exemplo as buscas que você faz, as suas preferências em vários sites e suas transações financeiras sendo usadas para criar serviços mais inteligentes e relevantes para voçê, foi a mais aceita pela platéia presente de aproximadamente 300 pessoas. 95% concordaram com ele.

Outra tendência com grande aceitação (90%) foi também apontada pelo Khosla, e apesar de não ser nenhuma novidade, vale o registro que o carvão e os outros combustíveis fósseis encontrarão cada vez mais dificuldade para competir no mercado de energia com as energias limpas, solares ou derivadas de vegetais não comestíveis.

A questão do esgotamento da água como recurso natural foi destacada pelo Joe Schoendorf que previu que esse problema será bem maior do que o aquecimento global, apesar de não ter conquistado ainda tanto espaço na mídia quanto este.

A tendência que pode se apresentar de forma mais acessível para empreendedores sem grandes recursos é o crescente mercado para tecnologias que promovam um envelhecimento mais saudável. A cada 11 segundos um baby boomer dos anos 40 faz 60 anos de idade. Essa geração representa um enorme mercado potencial para programas de exercícios mentais e educação online em vários assuntos diferentes. Um ebay (ou mercado livre, por aqui) para informações é outra possibilidade levantada.

Nenhuma dessas chega a me surpreender, você concorda? Todas já estão sendo bem discutidas e fazem bastante sentido. Importante é saber que elas estão na agenda de quem controla o capital. Para quem empreende por opção e sabe que o capital é um aliado de peso, é bom remar a favor da maré.


Para quem quiser ler mais sobre as tendências sugiro esse blog com uma lista compilada de 1 a 10.

12/05/2008

Inspiração para empreendedores

No sábado 10/05 o evento global Pangea Day mostrou ao vivo durante 4 horas vários filmes curta-metragens sensacionais. A ideía do evento era inspirar pessoas através de histórias contadas através desses filmes. Os filmes em si não podem mudar o mundo, mas as pessoas que assistem podem. Os filmes tem a intenção de mudar a cabeça das pessoas para que elas possam mudar o mundo. Vale a pena dar uma navegada pelos videos e assistir. Separei aqui alguns que achei particularmente inspiradores.

Uma das definições de empreendedorismo é ser capaz de criar algo novo com recursos limitados, que tal então esses meninos do filme "The Ball"


Esse é para aqueles que acham que a vida está muito difícil. Acho que você vai rever seus conceitos sobre como encarar suas dificuldades...


Se você gostou desses não deixe de dar uma olhada nos outros aqui.

09/05/2008

O sujeito nasce empreendedor ou é possível aprender?

Muitos acham que ou a pessoa nasce empreendedora ou ela não serve para a coisa. Outros tantos acreditam que o empreendedorismo pode ser ensinado nas escolas, faculdades ou pela vida mesmo. O que você acha?
A resposta para isso pode até parecer sem importância, mas não é. Quando o empreendedor começa a querer dar um salto maior e inicia a subida da escada da construção de um negócio ambicioso os preconceitos com essa pergunta começam a fazer efeito.


Investidores que não acreditam que o empreendedorismo possa ser ensinado vão procurar no candidato a receber investimento os traços de personalidade (normalmente algumas desordens) que identificam um empreendedor nato. Se ele desenvolveu seu senso empreendedor de outra forma, vai ficar de mãos abanando. Estará certo o investidor ao escolher assim? Por que não?

Será que o culto ao empreendedor nato, serial, não acaba limitando as chances de quem resolveu dar uma guinada no meio do caminho para seguir uma carreira empreendedora depois de uma carreira executiva? Ou será que o próprio executivo se encheu de tantos preconceitos corporativos que ao tentar empreender começa a sabotar sua própria sorte?

Os exemplos de sucesso ou fracasso aparecem pelos dois lados e fica difícil responder se o empreendedorismo é inato ou se pode ser aprendido depois. Mesmo assim a pergunta continua sendo feita para investidores e professores e todos parecem querer uma resposta simples, é ou não é?

Quer dividir sua opinião? Então comente abaixo.

04/05/2008

Aposto que a Luma não veste Le Lis Blanc

O empreendedor mais famoso no momento e que talvez mais desperte o interesse de quem gosta dos negócios (e de mulheres bonitas) é o polêmico Eike Batista. Nesse feriado eu li a ótima matéria da Época Negócios (dica do Diego Monteiro) sobre ele Gênio? Fanfarrão? Ambos? e procurei encontrar alguma lição diferente.

O usual é ver como ele é destemido, corajoso, bateu o recorde de velocidade da travessia Santos-Rio,etc... Nada disso ensina muito, afinal ninguém vai virar um amante da velocidade só porque o Eike Batista é assim.
Também não ajuda ficar lendo sobre as aventuras amorosas do sujeito. A Luma de Oliveira é maravilhosa, mas todos conhecemos também grandes idiotas que casaram com mulheres bonitas.

O que foi que encontrei então? Me chamou a atenção, e na minha opinião serve de lição para quem empreende, o cuidado acima da média que ele tem com o retorno sobre o investimento dos seus investidores.

"A grande diferença de Eike em relação a outros empresários é que ele não vê o mercado apenas como mais um meio de financiamento. Ele assume a postura de um gestor de recursos de terceiros, o que passa extrema confiança aos investidores".

Na sequência a reportagem cita o caso da abertura de capital da MPX, de energia, que sofreu uma enorme queda no preço de suas ações logo após o lançamento, devido a crise no começo desse ano. Eike não quis que os investidores tivessem esse prejuízo mesmo sabendo que era um problema de conjuntura de mercado global e nas regras do jogo isso está previsto.

Ele transferiu para a empresa ativos seus que recompuseram o valor do investimento para os investidores e é claro os deixou bastante satisfeitos.

"Benevolência? Nada disso. Ele precisa do mercado e sabe que esse respeito pode gerar novas e polpudas parcerias no futuro".

Ele fez porque entende que o empreendedor que pensa grande precisa do investidor para viabilizar seus planos. Essa é a lição que ele conhece bem.

Compare isso com a última abertura de capital feita na Bovespa, a da Le Lis Blanc. Parece que os oportunistas que compraram a empresa no ano passado só queriam o dinheiro fácil dos investidores. Começaram dizendo que a ações deveriam valer algo como R$10,50 a R$12,50, na última hora reduziram o intervalo para entre R$7,50 e R$8,50. Resolveram fechar a venda por R$6,75 e no primeiro dia as ações despencaram 20%! Ou seja, aquilo que eles disseram que valia R$12,50 fechou o primeiro dia de negócios valendo R$5,40. É menos da metade. Dá pra confiar nessa turma?

Não importa se você está construindo uma mineradora para competir com a Vale, uma cadeia de lojas de roupas de luxo, ou se está iniciando uma pequena empresa qualquer. No Brasil, sem capital, o empreendedor sofre demais. Se quiser dar uma de esperto no curto prazo vai se dar mal. Cuidar do retorno de quem ajuda a viabilizar os teus sonhos se mostra uma lição importante.

01/05/2008

As Novelas e a Wikipedia

Os 16 minutos desse vídeo abaixo valem mais do que 16 novelas inteiras. Essa foi a palestra que o Clay Shirky deu na Web 2.0 Expo em abril.

O assunto é fascinante. Ele começa voltando pela história da humanidade até a revolução industrial destacando que antes da sociedade começar a efetivamente usar os ativos gerados pela revolução, os homens ingleses passaram um bom tempo imersos no torpor do gin (isso mesmo, na bebida).
Só depois de uma geração que a sociedade saiu desse adormecimento e começou a produzir.

Ele acredita, e eu assino embaixo, que o gin da sociedade contemporânea são as novelas. Elas vem servindo como um dissipador da nossa capacidade cognitiva nos deixando letárgicos e muito menos empreendedores.
A mídia dos últimos 50 anos viveu sob o paradigma do consumo, os veículos de mídia produzem mídia e nós consumimos.

Só que a mídia agora já é vista sob uma forma tríplice, envolvendo a produção, o consumo e o compartilhamento. As pessoas não querem só consumir, querem produzir e compartilhar também. Esse é o fim das mídias tradicionais!

Um excelente exemplo da nossa capacidade de produzir e compartilhar é a Wikipedia. Os números que ele revela são assustadores. A Wikipedia consumiu até agora (numa conta de padeiro) o equivalente a 100 milhões de horas de pensamento humano. Parece muita coisa, né?

Então agora vem os números para derrubar o queixo. Somente nos Estados Unidos as pessoas gastam por ano 200 bilhões de horas assistindo TV. Em um ano poderiam ser feitos 2.000 projetos como a Wikipedia! O material cognitivo investido para produzir uma Wikipedia é desperdiçado num único final de semana nos Estados Unidos apenas por pessoas assistindo os comerciais de TV!

Se o mundo inteiro reduzisse apenas 1% o tempo gasto com a TV e usasse isso para produzir algo como a Wikipedia, nós teríamos 10.000 Wikipedias por ano!

No vídeo ele cita um exemplo de um professor brasileiro que está fazendo um projeto colaborativo. O professor de Fortaleza Vasco Furtado está usando sua capacidade cognitiva para algo bem melhor do que dissipá-la tentando saber quem matou Odete Roitman...



update: Aqui tem um outro artigo derivado dessa mesma palestra que para quem gostou do tema vale a pena ler.