O momento é de expectativa por mudanças. A crise e a eleição do Obama são os drivers principais. Muita coisa está quebrada e precisa de reforma, a Bolsa é uma delas.
Como muitos, admito que nessa crise fui sugado para dentro da Bovespa. Primeiro para tentar proteger o que já estava investido e depois para aproveitar as oportunidades com as barganhas e a alta volatilidade.
Nesse processo de retrocesso ao papel de "especulador" travestido de investidor de longo prazo tenho pensado sobre os problemas do sistema atual.
O tema me interessa muito porque a Bolsa sempre foi um objetivo de muitos empreendedores. Tanto dos grandes quanto dos menores, é só ver o último workshop da Endeavor "Bovespa Mais como alternativa de financiamento para empreendedores".![]()
O que aconteceu com os empreendedores que embarcaram na onda de IPO's do ano passado? Muitos botaram uma boa grana no bolso, mas suas empresas estão sofrendo como nunca. O que era para ser uma grande conquista virou um grande pesadelo. Equipes que acharam que ficariam milionárias com suas stock options viram tudo virar pó. Ao invés de estarem trabalhando com seus clientes, ficam todos acompanhando os preços das ações nos homebrokers. Ninguém foi bobinho, longe disso, mas o que estamos vendo agora mostra que o sistema é disfuncional.
Como pode algumas empresas serem precificadas na bolsa abaixo de seu valor patrimonial apenas meses depois de "road shows" vendendo múltiplos exuberantes? Os famigerados bancos de investimento ganharam milhões vendendo gato por lebre na onda de IPO's de 2007? Como o modelo atual permite uma falha tão grotesca?
Vejam alguns exemplos: com as cotações de hoje na Bolsa, a Cremer vale menos do que o seu patrimonio líquido contábil (94% do PL), a Bematech está valendo só 77% do seu patrimônio líquido, e a Iguatemi vale apenas 66% (um terço do seu valor patrimonial já é ignorado). Um módico detalhe: todas essas empresas dão lucro e distribuem dividendos!
O tão inteligente e eficiente "livre mercado" causa uma barbaridade dessas.
Além dos investidores que compraram as ações nesses IPO's, quem perdeu muito com isso foram os empreendedores. Empresas muito bem administradas, com excelentes perspectivas estão passando por maus bocados por terem aberto o capital. Gastaram dezenas de milhões com os bancos de investimento e agora estão largadas a própria sorte no fundo do poço.
Esse processo todo gera uma extrema financeirização dessas empresas, suga o tempo dos gestores para questões meramente financeiras de curto prazo. O foco fica em tentar reduzir o impacto sobre o negócio, promovido pela queda absurda do preço de suas ações.
A destruição de valor é enorme e não serve a ninguém que mereça. Todos perdem, a não ser os discípulos de Benjamin Graham. Mesmo tentando também ser um deles, não acho que seja justo com quem efetivamente cria valor (empreendedor).
Como mudar isso?
Tenho uma idéia, quem quiser pensar junto é totalmente bem vindo, quem quiser criticar também.
O Banco de investimento que leva uma empresa ao mercado aberto deve assumir uma responsabilidade maior. Para justificar o tamanho do ganho que tem com os IPO's, eles devem se responsabilizar por garantias mínimas de preço pelos primeiros 24 ou 36 meses de negociação das ações da empresa. Por que não uma garantia de compra das ações pelo preço equivalente ao valor patrimonial da empresa? Não deveria ser o mínimo que eles deveriam garantir aos novos investidores?
Se houvesse um piso desses acredito que muita irracionalidade seria retirada do mercado. Alguns podem argumentar que os programas de recompra são exatamente isso, mas não acho que sejam o suficiente.
Esses programas servem para as empresas já conhecidas e bem estabelecidas, as novatas não ganham nenhuma credibilidade quando os anunciam. Eles são amplamente ignorados e o mercado continua a castigar os preços. O caixa que deveria ser usado para criar valor é usado como sacos de areia tentando fazer uma represa. Além disso, são geradores de mais lucros para o mesmos bancos de investimento.
Em um longo excelente artigo recente, Michael Lewis fala sobre o fim da era que definiu Wall Street. Fiz como ele, larguei o mercado muitos anos antes da loucura terminar (exatos 10 anos antes). Mas o dia finalmente chegou. Agora temos que aproveitar o momento para reconstruir aquilo que está errado, porque do jeito que a Bolsa está, não vale mais a pena nem assistir ao workshop da Endeavor.
foto: http://flickr.com/photos/78629042@N00/479370088
11/11/2008
Empreendedores e a Bolsa de Valores
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